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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

História do Brasil Império - Por Boris Fausto


Terceira parte do documentário História do Brasil, retratando período do império e os primeiros passos do Brasil independente.


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Documentário História do Brasil, por Boris Fausto - Parte 2

O conhecimento é uma arma que todos podem usar, não deixe para depois o que você pode ter agora!

https://youtu.be/_FZxwqz27eM

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

As faces de dom Pedro I, uma breve história do império brasileiro

Boêmio, mulherengo, liberal e ao mesmo tempo com traços de autoritarismo. 

Reverenciado por muitos como um grande imperador e por outros como um problema para a nação. 

A verdade é que a vida de Dom Pedro I tem um pouco de tudo e tentarei trazer aqui de forma sucinta, um pouco da trajetória do primeiro imperador do Brasil.

Dom Pedro nasce em Portugal no dia 12 de outubro de 1798 e chega ao Brasil em 22 de janeiro de 1808, com sua família e todo um aparato real, após a "fuga" de Napoleão, que vinha tomando a Europa e esmagando todos aqueles que tinha os ingleses como aliados.

A princípio, Dom Pedro era só um jovem impetuoso, não se importando com seu status quo, relacionando-se com escravos e criados. Não possuía muito apego pelos estudos ou pela vida pública, sendo encontrado diversas vezes bêbado pela rua.

Gostava da vida boêmia, de mulheres, amava a música sendo considerado um grande compositor.


Seu pai, Dom João, governava Portugal como príncipe regente, após a loucura de sua mãe. Embora alguns menosprezam dom João, ele era perspicaz, agindo de forma estratégica em momentos importantes, como na própria fuga de Portugal, onde para preservar a liberdade política transfere a corte para o Brasil, trazendo consigo todo o aparato real e fortalecendo as relações com os ingleses.

Mas esse não é o foco desse texto, o que importa aqui é que Dom João tentava trazer seu filho para a política, querendo que ele se comportasse como um verdadeiro príncipe, mas era um trabalho duro.

Em 1817, ele se casa com Leopoldina da Austria em um casamento estratégico, mas uma prova da perspicácia de D. João, que buscava o apoio de Francisco I imperador da Áustria, que possuía grande influência na Santa Aliança, que havia derrubado Napoleão Bonaparte.


No entanto, D.Pedro não era o marido dos sonhos, mantendo várias amantes, inclusive a mais famosa de todas a Marquesa de Santos.


Leopoldina foi de extrema importância para o processo de independência que iria ocorrer anos depois. Ela era uma mulher estudada, com grandes conhecimentos acerca da política e de grandes estudiosos da época. 

A corte portuguesa estava se firmando no Brasil, constituindo famílias e adquirindo propriedades. D. João VI logo promove a colônia a Reino Unido de Portugal, fato que desagradou parte dos portugueses que permaneceram em sua terra natal.

Com a derrota de Napoleão Bonaparte, os portugueses passam a exigir o retorno imediato de D. João a Portugal, sob ameaça de golpe. 

D. João então decidi retornar, deixando D. Pedro como príncipe regente no Brasil, o que não agradou os portugueses, que desejavam o rebaixamento do Brasil a uma mera colônia novamente.

Com o passar do tempo, D. Pedro aliado as elites brasileiras, tomam decisões que desagradam D. João e os portugueses, que passam a exigir o retorno do príncipe a Portugal.

Uma série de coisas foram acontecendo, como o famoso "Dia do Fico" em janeiro de 1822, onde D. Pedro declara ficar no Brasil para o bem de todos. Mas isso em partes ocorre por pressão das elites brasileiras que desejavam a independência do Brasil, prometendo a coroa a D. Pedro.

Os ingleses também desejavam tal independência, fato que aumentaria suas influências dentro do país.

Eis então que no dia 07 de setembro de 1822, apoiado pela elite brasileira, as margens do Ipiranga, D. Pedro declara o Brasil independente.


Não foi tudo as mil maravilhas, diversas revoltas ocorreram nos anos que se sucederam e uma indenização foi paga a Portugal, para se concretizar tal independência, o dinheiro dessa indenização saiu de um empréstimo tomado com os ingleses. Surgindo aí a primeira dívida externa do Brasil.

D. Pedro assumi o poder como um imperador com ideias liberais, o que agradava a elite brasileira. No entanto logo fica claro que os ideais do imperador eram outros.

Uma Assembleia Constituinte é convocada para redigir a primeira constituição do Brasil, com grandes influenciadores como José Bonifácio. Essa primeira desagrada D. Pedro, que não aceitou ter o poder enfraquecido pela constituição, mostrando aí seu autoritarismo, destituindo  a Assembleia e não aceitando a constituição.

Em 1824, ajudado por um grupo de pessoas de sua confiança, D. Pedro redige a nova Constituição, que além dos três poderes previstos, lançava um quarto poder, o poder moderador, que daria o direito de anular qualquer decisão dos outros poderes, e destituir a Assembleia sempre que necessário. 

D. Pedro I deixava claro aí, que suas ideias liberais não se aplicava no seu governo, que seguia por ideias autoritárias, que desagradou toda a elite que o havia apoiado.

Os anos que se sucede é marcado por muita insatisfação e revoltas, D. Pedro I faz uma série de viagens afim de apaziguar os ânimos da nação.

Nesse tempo, Dona Leopoldina morre, deixando a população entristecida e sem saber os próximos passos do imperador. Muitos acreditavam que D. Pedro se casaria com sua amante Domentilha de Castro, no entanto todos foram surpreendidos quando ele buscou a nova esposa dentre a realeza européia.

Em 1829, casou-se com d. Amélia de Leuchtenberg, princesa da Baviera. Desse casamento, nasceu uma filha, chamada Maria Amélia. E quanto a sua amante, D. Pedro se afasta dela, indo contra ao que todos pensavam.

 d. Amélia de Leuchtenberg, princesa da Baviera

Em Portugal, seu pai D. João VI falece aos 59 anos, deixando o trono vago, que D. Pedro abdica em favor de sua filha, que se casaria com seu irmão D. Miguel, que deveria tomar conta do poder até que sua filha atingisse a maioridade.

D. Miguel chega a Portugal descumprindo o trato com D. Pedro, dando um golpe, tomando para si o trono, instituindo uma monarquia absolutista. 

Dom Miguel

D. Pedro entra em conflito diplomático com seu irmão, aumentando a insatisfação da elite brasileira, que acusava o imperador de se importar mais com os assuntos portugueses do que com os do Brasil.

Com o a grande impopularidade, em março de 1831, sob fortes pressões, D. Pedro I abdica do trono brasileiro em favor do seu Filho, Pedro de Alcântara, iniciando assim o período regencial que duraria até que o príncipe se tornasse de maior.

Pedro II aos 15 anos em pintura oficial - Wikimedia Commons

D. Pedro primeiro parte para Portugal, para recuperar o trono português pertencente a sua filha D. Maria II. Novamente mostrando sua face liberal, liderando um exército contra uma monarquia absolutista. Irônico não?

Caricatura representando D. Pedro IV e D. Miguel disputando a coroa portuguesa, por Honoré Daumier1833.

O conflito termina com a vitória de D. Pedro no comando dos liberais, e seu irmão é extraditado.

Em 1834, D. Pedro morre decorrente de uma tuberculose adquirida durante o conflito.

Ilustração do momento da morte de Dom Pedro I / Crédito: Wikimedia Commons

Essa é uma breve história de D. Pedro I, um homem peculiar e controverso. Não foi um bom imperador, mas tornou o Brasil independente, muito embora esse fato fosse por vontade de uma elite já consolidada no Brasil. No entanto viram na figura dele o homem que seria o líder da nação, com ideais liberais que logo foram jogados para baixo do tapete.

É preciso mais que algumas palavras para contar toda a trajetória controversa  e intrigante de De. Pedro, mas deixo aqui minha contribuição para esse pedaço da história de nosso país.


Prof Thiago Brasil 

domingo, 8 de março de 2015

HISTÓRIA DAS MULHERES



Documentário feito por alunos do curso de história da universidade estadual de Ponta Grossa, conta um da história de mulheres que lutaram por um mundo mais justo e sem discriminação sexual.

Feliz dia das mulheres, embora considere que todos os dias sejam delas.



Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=_PJ0zyTF414

quarta-feira, 4 de março de 2015

Quando o Império morreu de sede

Em 1889, uma grave crise hídrica só foi resolvida com a mobilização do povo, uma imprensa combativa e a habilidade de um jovem engenheiro. O governo não durou muito


Rodrigo Elias e Marcello Scarrone

Rio de Janeiro, capital do Império, início de 1889. O clima é quente. Auge do verão, a cidade alterna períodos de calor e secura com dias de chuvas torrenciais. Não há um sistema de esgoto eficiente. Áreas alagadiças no entorno do centro urbano favorecem a proliferação de mosquitos, hospedeiros de doenças que assolam toda a população desde os tempos da colônia. No final do século XIX, médicos e cientistas já haviam percebido a relação entre epidemias tropicais e a má-gestão da água.
As semanas passam, as chuvas rareiam. O calor aumenta. Com ele, a febre amarela. Aqueles que podem, tomam o trem e sobem a serra de Petrópolis. Aproveitam, como Pedro II e sua família, o clima ameno da cidade imperial. Na corte do Rio de Janeiro, fica quem tem que trabalhar. Ou seja, a maioria da população.
Dois de fevereiro. A epidemia aumenta. A Revista Illustrada, tocada pelo redator-caricaturista Angelo Agostini, propõe “medidas sanitárias” para resolver o problema. Entre elas, aumentar o abastecimento de água. Ao longo do mês, o problema se agrava. No dia 9, o mesmo semanário denuncia a situação alarmante: enquanto o surto de febre mata crianças indefesas, os funcionários do governo não fazem nada além de consultar livros e escrever ofícios.
O carnaval vai, a febre amarela fica
Final de fevereiro. O carnaval se aproxima. Os problemas continuam. Mas o que importa é a festa. O centro das atenções, no início do mês seguinte, é a Rua do Ouvidor. A rua é estreita, mas é ali que passa o Zé Pereira abrindo os festejos, no domingo. Na segunda-feira, Os Tenentes do Diabo. Os últimos a passar, levando o público nas janelas à loucura, na terça-feira, são Os Democráticos e Os Fenianos.
Na semana seguinte ainda se fala na festa, mas a maior preocupação é outra. A mesma Revista Illustrada abre os olhos do público: o carnaval vai embora, a febre amarela volta para ceifar mais vidas e os ministros, sempre distantes das necessidades reais da população, voltam para o ameno refúgio em Petrópolis. A primeira página da edição de 9 de março traz uma charge que ironiza o ministro da Agricultura, Rodrigo Silva, que tropeça na questão da falta d’água.
Agora o problema divide a opinião pública. De um lado, partidários do governo, como José do Patrocínio, que abandonou a causa republicana, eternamente grato à princesa Isabel. A tribuna de Patrocínio é o jornalCidade do Rio, que dirige. Do outro lado, críticos do Império, como Rui Barbosa. Seu palanque é o Diário de Notícias, que assumira naquele mesmo mês de março.
O jornal de Patrocínio tenta minimizar a crise. Diz, na edição de 9 de março, que o problema não é deste governo (o jornal governista conseguia livrar a cara de um governo que já tinha quase cinco décadas). A falta d’água, argumentava, é uma questão antiga e, para resolvê-la, é necessário pelo menos um ano de trabalho. Sabe-se que os dois meses de estiagem, aliados às altas temperaturas e ao aumento do consumo de água – reflexo, sobretudo, das questões sanitárias – transformava o problema em uma verdadeira crise de abastecimento. Portanto, a responsabilidade, na visão da imprensa aliada ao governo, era dos administradores anteriores, do clima e, é claro, das pessoas que consumiam água.

O povo vai às ruas pela água
O editorial do Diário de domingo, 10 de março, na primeira página, afronta o governo sem rodeios. A febre amarela, que já tomou a cidade e agora se alastra pelo interior, é apenas uma consequência. A causa, a seca. A solução: “água, água, água”. O governo, diz a matéria, não a coloca ao alcance da população por que não quer. Aponta uma possível saída: as águas da Serra do Comércio, a cerca de sessenta quilômetros ao noroeste da cidade, atual Baixada Fluminense. A redação do jornal ouve alguns especialistas e declara ao público que o problema pode ser resolvido em apenas seis dias. O editorial tem como alvo o Ministério da Agricultura, que barganha os preços de mananciais próximos à corte. Seus donos pedem 470 contos de réis. O ministério oferece quatrocentos – a falta d’água era, para os entes privados que controlavam as suas fontes, uma ótima oportunidade para lucrar.
O jornalista é enfático: “Estamos vendidos à peste por setenta contos de réis” (em anúncios do Jornal do Commercio daquele mesmo ano, o preço de uma chácara em uma região próxima ao centro da cidade podia variar entre trinta e cinquenta contos). Mas não fica nas afirmações. Convoca a população: “Se o povo do Rio encher a rua e disser que quer e terá água, tê-la-á.” A discussão ganha as ruas.
No dia 11, o jornal de Rui critica novamente o governo, divulgando o número de mortos pela febre. A reação popular é imediata. No dia seguinte, terça-feira, 12 de março, cerca de duas mil pessoas marcham no centro da cidade em um protesto pedindo água – uma quantidade nada desprezível para as demonstrações públicas na época. O povo carrega estandartes e cobra providências. O movimento é desqualificado pelo jornal Cidade do Rio, que o chama de “passeata fúnebre”.
Um dia antes do protesto, entretanto, o governo já se via encurralado, situação que só se tornou mais urgente com o povo na rua. Rodrigo Silva procura o Diário de Notícias para entrar em contato com os engenheiros que prometeram acabar com a seca em seis dias. O jornal, controlado por Rui Barbosa, dá os nomes de José Américo dos Santos e de Luís Carlos Barbosa de Oliveira, profissionais experientes. No mesmo dia, o ministro incumbe o primeiro de levar a cabo as obras. Deveria desviar as águas da Serra do Comércio (atual Maciço do Tinguá, na Baixada Fluminense) para as cabeceiras do rio Tinguá, que também abastecia a corte. O editorial da edição de terça-feira, 12 de março, dia do protesto, aplaude a iniciativa do ministro. Elogio precipitado.
O engenheiro explicou ao ministro que conseguiria realizar a obra em pouco tempo, mas em apenas seis dias seria impossível. O ministro, vaidoso, diz que não há negociação. Seis dias ou nada. Obviamente, a tribuna de Rui não deixa barato. Diz que, caso o projeto tenha a previsão superior a seis dias, que a capital morra de doenças e sede – assim pensa o Ministério da Agricultura e, consequentemente, todo o governo. As palavras do editorialista expõem, assim, a aliança entre a inoperância e a arrogância em um dos mais importantes ministérios do Império.
É a oportunidade que o governo esperava para tomar as rédeas da situação. Outros engenheiros aproveitam a chance de entrar em um negócio rentável. Propostas são feitas através dos jornais, estipulando prazos para a solução do problema, que variam entre um mês e quarenta dias. Rodrigo Silva rejeita todas. O ministro anuncia que vai fazer as obras “administrativamente”, ou seja, com pessoal, recursos e projeto do próprio governo, sob a responsabilidade do diretor das águas da corte, Francisco Bicalho. Prazo estipulado: quarenta dias.
A solução de Paulo de Frontin
O jornal governista de Patrocínio precipita-se e dá o caso por encerrado. Na primeira página, anuncia: “Está resolvida a questão do abastecimento de água.” Dá mais alguns detalhes do plano do governo, como a limpeza das tubulações de esgoto. Informa ainda que a epidemia diminuiu, desaprovando a atitude de certas pessoas que, “irresponsavelmente”, culpam o governo por tudo. Porém, no mesmo dia, o Diário lembra a promessa feita pelo ministro da Agricultura, há menos de uma semana, no Jornal do Commercio: se alguém apresentar um plano para trazer água à corte no prazo de seis dias, o governo não poupará despesas para concretizá-lo.
Sábado, 16 de março de 1889. Primeira página do Diário de Notícias, “Água em seis dias!” Sob este título, é publicada uma carta assinada por Paulo de Frontin. Seu autor, à época com 39 anos, um professor da primeira instituição do país dedicada à engenharia civil, a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, propõe aumentar o abastecimento de água da cidade em 15 milhões de litros diários (o abastecimento normal, sem a se­ca, era de 70 milhões de litros). Diz que o prazo de seis dias é razoável e dá o preço de oitenta contos de réis. A compra dos mananciais, por sua vez, ficaria em menos de noventa contos.
O jornal de Patrocínio, que também recebeu a carta, faz troça com o ilustre desconhecido que quer, em um prazo menor do que aquele em que o Criador fez o mundo, matar a sede do povo.
Rodrigo Silva, já com a palavra publicamente empenhada e coagido pelo imperador, que o mandou analisar a “proposta do moço”, não tem o que fazer a não ser assinar o contrato.
No dia seguinte, um domingo, o Diário de Notícias afirma que, assinando o contrato com Paulo de Frontin, o Ministério da Agricultura assinou moralmente a própria demissão. Mas Silva não foi ingênuo. Apostou no fracasso de Frontin. Estipulou multas exorbitantes para cada dia de atraso. Não previa nenhuma garantia ao engenheiro no caso de imprevistos naturais ou descumprimentos por parte do governo. Aparentemente, estava mais preocupado em salvar a pele do governo frente às críticas da imprensa e das ruas do que em resolver efetivamente o problema de forma ágil e eficiente.
No mesmo dia parte a primeira turma de engenheiros e operários do Largo de São Francisco, sede da Escola Politécnica, cujo prédio abriga atualmente o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, seguindo para a Serra do Comércio. O governo, que havia prometido ajuda no transporte da tubulação, nada faz. Segundo o jornal situacionista Cidade do Rio, tudo não passou de um mal-entendido. Já percebendo que havia comprado uma briga perdida, o periódico muda o tom. Diz que o povo pediu água e “água há de vir”.
Na segunda-feira, pouco antes das oito da noite, Paulo de Frontin parte do centro com uma comitiva de trezentas pessoas. Depois de uma hora, chegam à estação da estrada de ferro Rio do Ouro, na ponta do Caju. Enquanto os engenheiros conversam na plataforma de embarque, o trem parte. Às pressas, funcionários conseguem uma máquina e vão atrás do trem, fazendo-o parar. Os engenheiros não fazem cerimônia e embarcam em um vagão de bagagem, que é conduzido até o comboio.
O número de trabalhadores ainda é insuficiente. Os jornais publicam anúncios da Comissão Frontin convocando operários para a obra na serra, pagando cinco mil-réis a diária. Na quarta-feira, dia 20, já são quinhentos trabalhadores que, sob chuvas torrenciais, abrem cinco quilômetros de valas. Todos os dias candidatos se alistam para participar das obras. O leque social que os abrange é vasto. De “simples” trabalhadores braçais e estudantes de engenharia a médicos voluntários, entusiasmados com a iminente vitória da razão científica e da mobilização popular sobre as politicagens do governo central.

Água em seis dias
Na quinta-feira, dia 21, já são quase mil trabalhadores, mesmo sem a ajuda de operários prometidos pelo Império. Em telegrama, o correspondente do Diário de Notícias resume a situação: “Geral êxito, esplêndido triunfo.” No dia seguinte, 350 homens sob a orientação do engenheiro Carlos Sampaio abrem uma vala de quatro quilômetros e fazem uma calha com folhas de zinco ligando a cachoeira de Macuco a um novo reservatório, construído havia apenas dois anos, chamado Barrelão. Frontin organiza e distribui o trabalho em outras subcomissões, que, no mesmo compasso, vão dando cabo do projeto.
No sábado, Frontin descansou.
Os correspondentes enviam mensagens aos seus respectivos jornais e revistas, informando a vitória da empresa. A quantidade de água conseguida pelas obras é superior aos 15 milhões de litros propostos pelo engenheiro. A engenharia oficial, junto com o ministro e o diretor de águas, haviam, por outro lado, sido colocados em xeque. É o que noticia o Diário na edição de domingo, dia 24. Sua edição de segunda-feira, obviamente, tripudia sobre a desmoralizada burocracia imperial. Conclama Rodrigo Silva e Francisco Bicalho a dar vivas a Paulo de Frontin.
O engenheiro chega à corte naquela mesma segunda-feira. Ao contrário do povo, Rodrigo Silva não vai recebê-lo. Muito menos Francisco Bicalho, o responsável pelas águas da corte, que teve oito anos para resolver o problema de abastecimento. Tão falastrão quanto Silva, havia dito uma semana antes que o trabalho não poderia ser feito em menos de seis meses. Mas, tentando se redimir, o governo anuncia um contrato com Frontin para manutenção das obras. O agora ilustre personagem é conduzido com festa pelas ruas do centro, seguindo para a Rua do Ouvidor, onde discursa em frente às redações dos jornais. Entra na sede do Diário de Notícias e diz que a glória é do jornal.
O diário de José do Patrocínio, por sua vez, contemporiza. Na edição de terça-feira, aplaude o engenheiro, mas também louva o governo. Diz que sem o apoio e a compreensão do ministro Rodrigo Silva, os esforços de Frontin seriam inúteis.
A charge publicada no dia 30 de março pela Revista Illustrada, com toda a força das alegorias elaboradas por Angelo Agostini, resume todo o episódio. As águas trazidas por Frontin arrastam toda a ineficiente estrutura do governo, incluindo o ministro tagarela.
Pouco mais de seis meses depois o Império cairia, efeito de um movimento de militares descontentes e republicanos conspiradores. Mas suas engrenagens ineficazes já haviam sido expostas ao público por um desconhecido engenheiro e 17 milhões de litros de água. Em apenas seis dias.
Rodrigo Elias é editor e Marcello Scarrone é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional. Uma versão anterior deste artigo foi publicada na revista Nossa História, em setembro de 2004.

De gota em gota

Avanço do abastecimento de água em São Paulo deu-se lentamente, em meio a secas e crises, espelhando as desigualdades sociais


Filomena Pugliese Fonseca / Dalmo Dippold Vilar

Os primeiros aquedutos de São Paulo foram fruto de um improviso bem-sucedido. Na época, os telhados das casas eram feitos com telhas tipo capa e canal, vulgarmente conhecidas como telhas de coxa. Para passar do teto ao chão, bastou criatividade: quando colocadas no sentido inverso ao que se usa no telhado, formavam verdadeiros dutos para a passagem de água.
Fundada em 1554, a cidade demorou quase dois séculos para ver o início de um sistema de fontes públicas. O primeiro chafariz foi construído apenas em 1744, ao lado do largo de São Francisco, alimentado por um aqueduto de telhas de coxa imbricadas umas nas outras. Ele corria a céu aberto e conduzia a água do rio Anhangabaú também para o chafariz do Tebas, construído mais tarde no largo da Misericórdia, próximo à atual praça da Sé, marco zero de São Paulo.      
Na segunda metade daquele século, diante dos clamores da população sedenta exigindo solução para o grave problema do abastecimento, as autoridades tomaram uma providência: as águas do Anhangabaú foram represadas em dois tanques. Mas não havia qualquer preocupação com a qualidade das águas. Um desses tanques era abastecido com águas que passavam por vala descoberta e atravessavam locais cujo ar era fétido e o chão juncado de caveiras de boi, sabugos, chifres, ossos e outros resíduos imundos provenientes do matadouro municipal. A primeira análise conhecida da qualidade da água para consumo público em São Paulo foi feita pelo astrônomo e geógrafo português Bento Sanches D’Orta, em 1791, a pedido do então governador da capitania, Bernardo José de Lorena. O resultado confirmou a situação de insalubridade, mas nenhuma providência foi tomada. 
Os chafarizes tinham papel relevante para matar a sede dos paulistanos. A preferência para a sua construção recaía em pontos de encontro de um número razoável de pessoas, em especial nas proximidades das igrejas. Elas foram o centro de atração do núcleo urbano ao longo dos séculos XVIII e XIX, com o poder de congregar os habitantes nas missas dominicais e nas procissões obrigatórias.Nos ambientes de convivência da camada menos favorecida da população, os chafarizes causavam certos distúrbios sociais, como o grande número de mulheres cativas e alforriadas que eram abordadas pelos frequentadores das fontes. A situação levou a Câmara Municipal, na metade do século XVIII, a definir que “qualquer mancebo, solteiro ou casado, que se achar pegando alguma negra que vá à fonte ou ao rio, pague 50 réis para o Conselho e, pela segunda, 100 réis”.
Ao longo do século XIX, agrava-se a crise no abastecimento. Surge então uma figura peculiar: a dos “aguadeiros”, que devido à dificuldade no transporte das águas dos chafarizes e dos rios Anhangabaú e Tamanduateí, levavam-nas à porta das casas em pipas puxadas por burros. Os moradores adquiriam os barris ou potes, que correspondiam a uma marca de carvão na parede. No final do mês, computavam-se as marcas e a conta era paga à razão de 40 a 80 réis por barril de 20 litros.
A mão de obra imigrante impulsionou o crescimento demográfico a partir de 1867, gerando ocupação desordenada do espaço urbano. O abastecimento de água tornava-se crítico, o que levou o governo da Província a realizar obra inédita de substituição do antigo sistema de telhas de coxa por encanamentos de ferro, captando a água do córrego Anhangabaú e levando-a para diversos chafarizes.  No dia da inauguração daquela que parecia ser a obra do século, nenhuma gota d’água chegou às torneiras públicas: o engenheiro equivocara-se com o diâmetro da tubulação. Dois anos depois, o engenheiro militar Azevedo Marques empregou técnica inédita de canalização, com tubos de papelão revestidos de betume, que levavam as águas do tanque do Reúno para o chafariz do Piques, e daí para o Jardim da Luz. A manufatura desses canos era feita pelo próprio inventor, no local onde funcionou o antigo Hospício de Alienados, então desativado, na atual avenida São João, nas proximidades da rua Aurora. O sistema durou aproximadamente oito anos.
Esgotadas todas as tentativas do poder público de erradicar a secular falta d’água na cidade, o governo provincial transferiu para a iniciativa privada a incumbência de implantar e explorar um sistema eficaz de abastecimento público, o que ocorreu em 1877, com a criação da Companhia Cantareira de Águas e Esgotos. Em 1881, os prédios do centro da capital e os chafarizes públicos passaram a ser abastecidos com águas captadas na Serra da Cantareira, através de encanamentos de ferro fundido num percurso de aproximadamente 15 quilômetros, até chegar à recém-inaugurada caixa d’água da Consolação. São Paulo entrava, enfim, no período de captação – deixando para trás os tempos de “catação” de água.
Nos anos posteriores, porém, a empresa não conseguiu acompanhar a demanda que a explosão demográfica e o surto de desenvolvimento da cidade exigiam, levando o governo do estado a encampar a companhia em 1892 e a criar a Repartição de Águas e Esgotos (RAE). Foi quando se expediu a ordem para que todos os chafarizes da cidade fossem destruídos. Acabou a distribuição de águas livres, o que gerou grande revolta na população.
A cidade continuava a crescer, com valorização territorial das regiões localizadas em suas partes altas, abastecidas pelas águas da Serra da Cantareira, consideradas puras. Como consequência, a população de baixa renda concentrou-se nas áreas vizinhas às várzeas, em cortiços situados próximos às fábricas e às estradas de ferro, dando origem aos bairros operários da Mooca, Brás, Belenzinho e Penha.            Em 1903, a RAE utiliza as águas do rio Tietê para abastecer essa parte da cidade e, a partir de então, seus habitantes passam a sofrer de moléstias infecto-contagiosas típicas de veiculação hídrica, como a febre tifóide, uma das principais causas de mortalidade infantil. Mas as autoridades não acreditavam que a qualidade das águas tivesse relação com as epidemias. Saturnino de Brito (1864-1929) cita no volume III em Obras Completas de 1943o que disse o diretor do Serviço Sanitário, Sr. Dr. Emilio Ribas (1862-1925), sobre o abastecimento pelo rio Tietê, convenientemente tratado, mas que não resolveria a questão da salubridade do bairro operário do Brás: “aquele em que se aglomera a população menos asseada, em que as edificações são menos ‘sanitárias’ e em que o terreno, baixo e úmido, por si deveria concorrer para a depressão mórbida na constituição médica regional”.
O aproveitamento do Tietê seria possível com um eficaz tratamento de suas águas, mas o rio foi abandonado à própria sorte por existirem, segundo o governo, locais de captação de águas mais puras e cristalinas, como ocorreu com a construção de três grandes reservatórios ou lagos artificiais – do Engordador, Guaraú e Cabuçu – localizados no atual Parque Estadual da Cantareira. Em 1908, foi inaugurada a barragem do Cabuçu, primeira grande obra de concreto armado no país. A cidade já contava então com cerca de 400 mil habitantes, e o novo reservatório determinou o fim da elitização na distribuição do precioso líquido, uma vez que nessa época as águas da Serra da Cantareira abasteciam os bairros nobres e o centro comercial da cidade de São Paulo. Os bairros proletários deixaram de ser abastecidos pelo poluído rio Tietê, que tantas vítimas fez com suas águas pestilentas, principalmente entre a população infantil.
O conforto e o bem-estar proporcionados pela água encanada para a maior parte da população encobrem toda uma luta de superação do homem em relação ao seu meio físico. As vozes do passado podem ampliar a conscientização popular para o uso racional da água, grande preocupação do novo milênio. Embora o Brasil tenha uma das maiores reservas hídricas do mundo, a água é finita: líquida, mas não é certa.

Filomena Pugliese Fonseca é arqueóloga, pós-doutoranda em História da Ciência na Universidade de São Paulo, e autora da tese “As águas do passado e os reservatórios do Guaraú, Engordador e Cabuçu: um estudo de Arqueologia Industrial”, (USP, 2008).
Dalmo Dippold Vilar é arqueólogo, pós-doutorando em História da Ciência na Universidade de São Paulo, e autor da tese “Água aos cântaros – Os reservatórios da Cantareira: um estudo de Arqueologia Industrial”, (USP, 2008).

Saiba Mais
COSTA, Luiz Augusto MaiaOideário urbano paulista na virada do século. São Paulo: Editora Rima, 2003.
FREITAS, Afonso A. de. Tradições e Reminiscências Paulistanas. São Paulo: Gov. do Estado, 1978.
KAHTOUNI Saide. Cidade das águas. São Paulo: Ed. Rima, 2004.