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domingo, 8 de março de 2015
HISTÓRIA DAS MULHERES
Documentário feito por alunos do curso de história da universidade estadual de Ponta Grossa, conta um da história de mulheres que lutaram por um mundo mais justo e sem discriminação sexual.
Feliz dia das mulheres, embora considere que todos os dias sejam delas.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=_PJ0zyTF414
quarta-feira, 4 de março de 2015
Quando o Império morreu de sede
Em 1889, uma grave crise hídrica só foi resolvida com a mobilização do povo, uma imprensa combativa e a habilidade de um jovem engenheiro. O governo não durou muito
Rodrigo Elias e Marcello Scarrone
Rio de Janeiro, capital do Império, início de 1889. O clima é quente. Auge do verão, a cidade alterna períodos de calor e secura com dias de chuvas torrenciais. Não há um sistema de esgoto eficiente. Áreas alagadiças no entorno do centro urbano favorecem a proliferação de mosquitos, hospedeiros de doenças que assolam toda a população desde os tempos da colônia. No final do século XIX, médicos e cientistas já haviam percebido a relação entre epidemias tropicais e a má-gestão da água.
As semanas passam, as chuvas rareiam. O calor aumenta. Com ele, a febre amarela. Aqueles que podem, tomam o trem e sobem a serra de Petrópolis. Aproveitam, como Pedro II e sua família, o clima ameno da cidade imperial. Na corte do Rio de Janeiro, fica quem tem que trabalhar. Ou seja, a maioria da população.
Dois de fevereiro. A epidemia aumenta. A Revista Illustrada, tocada pelo redator-caricaturista Angelo Agostini, propõe “medidas sanitárias” para resolver o problema. Entre elas, aumentar o abastecimento de água. Ao longo do mês, o problema se agrava. No dia 9, o mesmo semanário denuncia a situação alarmante: enquanto o surto de febre mata crianças indefesas, os funcionários do governo não fazem nada além de consultar livros e escrever ofícios.
O carnaval vai, a febre amarela fica
Final de fevereiro. O carnaval se aproxima. Os problemas continuam. Mas o que importa é a festa. O centro das atenções, no início do mês seguinte, é a Rua do Ouvidor. A rua é estreita, mas é ali que passa o Zé Pereira abrindo os festejos, no domingo. Na segunda-feira, Os Tenentes do Diabo. Os últimos a passar, levando o público nas janelas à loucura, na terça-feira, são Os Democráticos e Os Fenianos.
Na semana seguinte ainda se fala na festa, mas a maior preocupação é outra. A mesma Revista Illustrada abre os olhos do público: o carnaval vai embora, a febre amarela volta para ceifar mais vidas e os ministros, sempre distantes das necessidades reais da população, voltam para o ameno refúgio em Petrópolis. A primeira página da edição de 9 de março traz uma charge que ironiza o ministro da Agricultura, Rodrigo Silva, que tropeça na questão da falta d’água.
Agora o problema divide a opinião pública. De um lado, partidários do governo, como José do Patrocínio, que abandonou a causa republicana, eternamente grato à princesa Isabel. A tribuna de Patrocínio é o jornalCidade do Rio, que dirige. Do outro lado, críticos do Império, como Rui Barbosa. Seu palanque é o Diário de Notícias, que assumira naquele mesmo mês de março.
O jornal de Patrocínio tenta minimizar a crise. Diz, na edição de 9 de março, que o problema não é deste governo (o jornal governista conseguia livrar a cara de um governo que já tinha quase cinco décadas). A falta d’água, argumentava, é uma questão antiga e, para resolvê-la, é necessário pelo menos um ano de trabalho. Sabe-se que os dois meses de estiagem, aliados às altas temperaturas e ao aumento do consumo de água – reflexo, sobretudo, das questões sanitárias – transformava o problema em uma verdadeira crise de abastecimento. Portanto, a responsabilidade, na visão da imprensa aliada ao governo, era dos administradores anteriores, do clima e, é claro, das pessoas que consumiam água.
O povo vai às ruas pela água
O editorial do Diário de domingo, 10 de março, na primeira página, afronta o governo sem rodeios. A febre amarela, que já tomou a cidade e agora se alastra pelo interior, é apenas uma consequência. A causa, a seca. A solução: “água, água, água”. O governo, diz a matéria, não a coloca ao alcance da população por que não quer. Aponta uma possível saída: as águas da Serra do Comércio, a cerca de sessenta quilômetros ao noroeste da cidade, atual Baixada Fluminense. A redação do jornal ouve alguns especialistas e declara ao público que o problema pode ser resolvido em apenas seis dias. O editorial tem como alvo o Ministério da Agricultura, que barganha os preços de mananciais próximos à corte. Seus donos pedem 470 contos de réis. O ministério oferece quatrocentos – a falta d’água era, para os entes privados que controlavam as suas fontes, uma ótima oportunidade para lucrar.
O jornalista é enfático: “Estamos vendidos à peste por setenta contos de réis” (em anúncios do Jornal do Commercio daquele mesmo ano, o preço de uma chácara em uma região próxima ao centro da cidade podia variar entre trinta e cinquenta contos). Mas não fica nas afirmações. Convoca a população: “Se o povo do Rio encher a rua e disser que quer e terá água, tê-la-á.” A discussão ganha as ruas.
No dia 11, o jornal de Rui critica novamente o governo, divulgando o número de mortos pela febre. A reação popular é imediata. No dia seguinte, terça-feira, 12 de março, cerca de duas mil pessoas marcham no centro da cidade em um protesto pedindo água – uma quantidade nada desprezível para as demonstrações públicas na época. O povo carrega estandartes e cobra providências. O movimento é desqualificado pelo jornal Cidade do Rio, que o chama de “passeata fúnebre”.
Um dia antes do protesto, entretanto, o governo já se via encurralado, situação que só se tornou mais urgente com o povo na rua. Rodrigo Silva procura o Diário de Notícias para entrar em contato com os engenheiros que prometeram acabar com a seca em seis dias. O jornal, controlado por Rui Barbosa, dá os nomes de José Américo dos Santos e de Luís Carlos Barbosa de Oliveira, profissionais experientes. No mesmo dia, o ministro incumbe o primeiro de levar a cabo as obras. Deveria desviar as águas da Serra do Comércio (atual Maciço do Tinguá, na Baixada Fluminense) para as cabeceiras do rio Tinguá, que também abastecia a corte. O editorial da edição de terça-feira, 12 de março, dia do protesto, aplaude a iniciativa do ministro. Elogio precipitado.
O engenheiro explicou ao ministro que conseguiria realizar a obra em pouco tempo, mas em apenas seis dias seria impossível. O ministro, vaidoso, diz que não há negociação. Seis dias ou nada. Obviamente, a tribuna de Rui não deixa barato. Diz que, caso o projeto tenha a previsão superior a seis dias, que a capital morra de doenças e sede – assim pensa o Ministério da Agricultura e, consequentemente, todo o governo. As palavras do editorialista expõem, assim, a aliança entre a inoperância e a arrogância em um dos mais importantes ministérios do Império.
É a oportunidade que o governo esperava para tomar as rédeas da situação. Outros engenheiros aproveitam a chance de entrar em um negócio rentável. Propostas são feitas através dos jornais, estipulando prazos para a solução do problema, que variam entre um mês e quarenta dias. Rodrigo Silva rejeita todas. O ministro anuncia que vai fazer as obras “administrativamente”, ou seja, com pessoal, recursos e projeto do próprio governo, sob a responsabilidade do diretor das águas da corte, Francisco Bicalho. Prazo estipulado: quarenta dias.
A solução de Paulo de Frontin
O jornal governista de Patrocínio precipita-se e dá o caso por encerrado. Na primeira página, anuncia: “Está resolvida a questão do abastecimento de água.” Dá mais alguns detalhes do plano do governo, como a limpeza das tubulações de esgoto. Informa ainda que a epidemia diminuiu, desaprovando a atitude de certas pessoas que, “irresponsavelmente”, culpam o governo por tudo. Porém, no mesmo dia, o Diário lembra a promessa feita pelo ministro da Agricultura, há menos de uma semana, no Jornal do Commercio: se alguém apresentar um plano para trazer água à corte no prazo de seis dias, o governo não poupará despesas para concretizá-lo.
Sábado, 16 de março de 1889. Primeira página do Diário de Notícias, “Água em seis dias!” Sob este título, é publicada uma carta assinada por Paulo de Frontin. Seu autor, à época com 39 anos, um professor da primeira instituição do país dedicada à engenharia civil, a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, propõe aumentar o abastecimento de água da cidade em 15 milhões de litros diários (o abastecimento normal, sem a seca, era de 70 milhões de litros). Diz que o prazo de seis dias é razoável e dá o preço de oitenta contos de réis. A compra dos mananciais, por sua vez, ficaria em menos de noventa contos.
O jornal de Patrocínio, que também recebeu a carta, faz troça com o ilustre desconhecido que quer, em um prazo menor do que aquele em que o Criador fez o mundo, matar a sede do povo.
Rodrigo Silva, já com a palavra publicamente empenhada e coagido pelo imperador, que o mandou analisar a “proposta do moço”, não tem o que fazer a não ser assinar o contrato.
No dia seguinte, um domingo, o Diário de Notícias afirma que, assinando o contrato com Paulo de Frontin, o Ministério da Agricultura assinou moralmente a própria demissão. Mas Silva não foi ingênuo. Apostou no fracasso de Frontin. Estipulou multas exorbitantes para cada dia de atraso. Não previa nenhuma garantia ao engenheiro no caso de imprevistos naturais ou descumprimentos por parte do governo. Aparentemente, estava mais preocupado em salvar a pele do governo frente às críticas da imprensa e das ruas do que em resolver efetivamente o problema de forma ágil e eficiente.
No mesmo dia parte a primeira turma de engenheiros e operários do Largo de São Francisco, sede da Escola Politécnica, cujo prédio abriga atualmente o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, seguindo para a Serra do Comércio. O governo, que havia prometido ajuda no transporte da tubulação, nada faz. Segundo o jornal situacionista Cidade do Rio, tudo não passou de um mal-entendido. Já percebendo que havia comprado uma briga perdida, o periódico muda o tom. Diz que o povo pediu água e “água há de vir”.
Na segunda-feira, pouco antes das oito da noite, Paulo de Frontin parte do centro com uma comitiva de trezentas pessoas. Depois de uma hora, chegam à estação da estrada de ferro Rio do Ouro, na ponta do Caju. Enquanto os engenheiros conversam na plataforma de embarque, o trem parte. Às pressas, funcionários conseguem uma máquina e vão atrás do trem, fazendo-o parar. Os engenheiros não fazem cerimônia e embarcam em um vagão de bagagem, que é conduzido até o comboio.
O número de trabalhadores ainda é insuficiente. Os jornais publicam anúncios da Comissão Frontin convocando operários para a obra na serra, pagando cinco mil-réis a diária. Na quarta-feira, dia 20, já são quinhentos trabalhadores que, sob chuvas torrenciais, abrem cinco quilômetros de valas. Todos os dias candidatos se alistam para participar das obras. O leque social que os abrange é vasto. De “simples” trabalhadores braçais e estudantes de engenharia a médicos voluntários, entusiasmados com a iminente vitória da razão científica e da mobilização popular sobre as politicagens do governo central.
Água em seis dias
Na quinta-feira, dia 21, já são quase mil trabalhadores, mesmo sem a ajuda de operários prometidos pelo Império. Em telegrama, o correspondente do Diário de Notícias resume a situação: “Geral êxito, esplêndido triunfo.” No dia seguinte, 350 homens sob a orientação do engenheiro Carlos Sampaio abrem uma vala de quatro quilômetros e fazem uma calha com folhas de zinco ligando a cachoeira de Macuco a um novo reservatório, construído havia apenas dois anos, chamado Barrelão. Frontin organiza e distribui o trabalho em outras subcomissões, que, no mesmo compasso, vão dando cabo do projeto.
No sábado, Frontin descansou.
Os correspondentes enviam mensagens aos seus respectivos jornais e revistas, informando a vitória da empresa. A quantidade de água conseguida pelas obras é superior aos 15 milhões de litros propostos pelo engenheiro. A engenharia oficial, junto com o ministro e o diretor de águas, haviam, por outro lado, sido colocados em xeque. É o que noticia o Diário na edição de domingo, dia 24. Sua edição de segunda-feira, obviamente, tripudia sobre a desmoralizada burocracia imperial. Conclama Rodrigo Silva e Francisco Bicalho a dar vivas a Paulo de Frontin.
O engenheiro chega à corte naquela mesma segunda-feira. Ao contrário do povo, Rodrigo Silva não vai recebê-lo. Muito menos Francisco Bicalho, o responsável pelas águas da corte, que teve oito anos para resolver o problema de abastecimento. Tão falastrão quanto Silva, havia dito uma semana antes que o trabalho não poderia ser feito em menos de seis meses. Mas, tentando se redimir, o governo anuncia um contrato com Frontin para manutenção das obras. O agora ilustre personagem é conduzido com festa pelas ruas do centro, seguindo para a Rua do Ouvidor, onde discursa em frente às redações dos jornais. Entra na sede do Diário de Notícias e diz que a glória é do jornal.
O diário de José do Patrocínio, por sua vez, contemporiza. Na edição de terça-feira, aplaude o engenheiro, mas também louva o governo. Diz que sem o apoio e a compreensão do ministro Rodrigo Silva, os esforços de Frontin seriam inúteis.
A charge publicada no dia 30 de março pela Revista Illustrada, com toda a força das alegorias elaboradas por Angelo Agostini, resume todo o episódio. As águas trazidas por Frontin arrastam toda a ineficiente estrutura do governo, incluindo o ministro tagarela.
Pouco mais de seis meses depois o Império cairia, efeito de um movimento de militares descontentes e republicanos conspiradores. Mas suas engrenagens ineficazes já haviam sido expostas ao público por um desconhecido engenheiro e 17 milhões de litros de água. Em apenas seis dias.
Rodrigo Elias é editor e Marcello Scarrone é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional. Uma versão anterior deste artigo foi publicada na revista Nossa História, em setembro de 2004.
De gota em gota
Avanço do abastecimento de água em São Paulo deu-se lentamente, em meio a secas e crises, espelhando as desigualdades sociais
Filomena Pugliese Fonseca / Dalmo Dippold Vilar
Os primeiros aquedutos de São Paulo foram fruto de um improviso bem-sucedido. Na época, os telhados das casas eram feitos com telhas tipo capa e canal, vulgarmente conhecidas como telhas de coxa. Para passar do teto ao chão, bastou criatividade: quando colocadas no sentido inverso ao que se usa no telhado, formavam verdadeiros dutos para a passagem de água.
Fundada em 1554, a cidade demorou quase dois séculos para ver o início de um sistema de fontes públicas. O primeiro chafariz foi construído apenas em 1744, ao lado do largo de São Francisco, alimentado por um aqueduto de telhas de coxa imbricadas umas nas outras. Ele corria a céu aberto e conduzia a água do rio Anhangabaú também para o chafariz do Tebas, construído mais tarde no largo da Misericórdia, próximo à atual praça da Sé, marco zero de São Paulo.
Na segunda metade daquele século, diante dos clamores da população sedenta exigindo solução para o grave problema do abastecimento, as autoridades tomaram uma providência: as águas do Anhangabaú foram represadas em dois tanques. Mas não havia qualquer preocupação com a qualidade das águas. Um desses tanques era abastecido com águas que passavam por vala descoberta e atravessavam locais cujo ar era fétido e o chão juncado de caveiras de boi, sabugos, chifres, ossos e outros resíduos imundos provenientes do matadouro municipal. A primeira análise conhecida da qualidade da água para consumo público em São Paulo foi feita pelo astrônomo e geógrafo português Bento Sanches D’Orta, em 1791, a pedido do então governador da capitania, Bernardo José de Lorena. O resultado confirmou a situação de insalubridade, mas nenhuma providência foi tomada.
Os chafarizes tinham papel relevante para matar a sede dos paulistanos. A preferência para a sua construção recaía em pontos de encontro de um número razoável de pessoas, em especial nas proximidades das igrejas. Elas foram o centro de atração do núcleo urbano ao longo dos séculos XVIII e XIX, com o poder de congregar os habitantes nas missas dominicais e nas procissões obrigatórias.Nos ambientes de convivência da camada menos favorecida da população, os chafarizes causavam certos distúrbios sociais, como o grande número de mulheres cativas e alforriadas que eram abordadas pelos frequentadores das fontes. A situação levou a Câmara Municipal, na metade do século XVIII, a definir que “qualquer mancebo, solteiro ou casado, que se achar pegando alguma negra que vá à fonte ou ao rio, pague 50 réis para o Conselho e, pela segunda, 100 réis”.
Ao longo do século XIX, agrava-se a crise no abastecimento. Surge então uma figura peculiar: a dos “aguadeiros”, que devido à dificuldade no transporte das águas dos chafarizes e dos rios Anhangabaú e Tamanduateí, levavam-nas à porta das casas em pipas puxadas por burros. Os moradores adquiriam os barris ou potes, que correspondiam a uma marca de carvão na parede. No final do mês, computavam-se as marcas e a conta era paga à razão de 40 a 80 réis por barril de 20 litros.
A mão de obra imigrante impulsionou o crescimento demográfico a partir de 1867, gerando ocupação desordenada do espaço urbano. O abastecimento de água tornava-se crítico, o que levou o governo da Província a realizar obra inédita de substituição do antigo sistema de telhas de coxa por encanamentos de ferro, captando a água do córrego Anhangabaú e levando-a para diversos chafarizes. No dia da inauguração daquela que parecia ser a obra do século, nenhuma gota d’água chegou às torneiras públicas: o engenheiro equivocara-se com o diâmetro da tubulação. Dois anos depois, o engenheiro militar Azevedo Marques empregou técnica inédita de canalização, com tubos de papelão revestidos de betume, que levavam as águas do tanque do Reúno para o chafariz do Piques, e daí para o Jardim da Luz. A manufatura desses canos era feita pelo próprio inventor, no local onde funcionou o antigo Hospício de Alienados, então desativado, na atual avenida São João, nas proximidades da rua Aurora. O sistema durou aproximadamente oito anos.
Esgotadas todas as tentativas do poder público de erradicar a secular falta d’água na cidade, o governo provincial transferiu para a iniciativa privada a incumbência de implantar e explorar um sistema eficaz de abastecimento público, o que ocorreu em 1877, com a criação da Companhia Cantareira de Águas e Esgotos. Em 1881, os prédios do centro da capital e os chafarizes públicos passaram a ser abastecidos com águas captadas na Serra da Cantareira, através de encanamentos de ferro fundido num percurso de aproximadamente 15 quilômetros, até chegar à recém-inaugurada caixa d’água da Consolação. São Paulo entrava, enfim, no período de captação – deixando para trás os tempos de “catação” de água.
Nos anos posteriores, porém, a empresa não conseguiu acompanhar a demanda que a explosão demográfica e o surto de desenvolvimento da cidade exigiam, levando o governo do estado a encampar a companhia em 1892 e a criar a Repartição de Águas e Esgotos (RAE). Foi quando se expediu a ordem para que todos os chafarizes da cidade fossem destruídos. Acabou a distribuição de águas livres, o que gerou grande revolta na população.
A cidade continuava a crescer, com valorização territorial das regiões localizadas em suas partes altas, abastecidas pelas águas da Serra da Cantareira, consideradas puras. Como consequência, a população de baixa renda concentrou-se nas áreas vizinhas às várzeas, em cortiços situados próximos às fábricas e às estradas de ferro, dando origem aos bairros operários da Mooca, Brás, Belenzinho e Penha. Em 1903, a RAE utiliza as águas do rio Tietê para abastecer essa parte da cidade e, a partir de então, seus habitantes passam a sofrer de moléstias infecto-contagiosas típicas de veiculação hídrica, como a febre tifóide, uma das principais causas de mortalidade infantil. Mas as autoridades não acreditavam que a qualidade das águas tivesse relação com as epidemias. Saturnino de Brito (1864-1929) cita no volume III em Obras Completas de 1943o que disse o diretor do Serviço Sanitário, Sr. Dr. Emilio Ribas (1862-1925), sobre o abastecimento pelo rio Tietê, convenientemente tratado, mas que não resolveria a questão da salubridade do bairro operário do Brás: “aquele em que se aglomera a população menos asseada, em que as edificações são menos ‘sanitárias’ e em que o terreno, baixo e úmido, por si deveria concorrer para a depressão mórbida na constituição médica regional”.
O aproveitamento do Tietê seria possível com um eficaz tratamento de suas águas, mas o rio foi abandonado à própria sorte por existirem, segundo o governo, locais de captação de águas mais puras e cristalinas, como ocorreu com a construção de três grandes reservatórios ou lagos artificiais – do Engordador, Guaraú e Cabuçu – localizados no atual Parque Estadual da Cantareira. Em 1908, foi inaugurada a barragem do Cabuçu, primeira grande obra de concreto armado no país. A cidade já contava então com cerca de 400 mil habitantes, e o novo reservatório determinou o fim da elitização na distribuição do precioso líquido, uma vez que nessa época as águas da Serra da Cantareira abasteciam os bairros nobres e o centro comercial da cidade de São Paulo. Os bairros proletários deixaram de ser abastecidos pelo poluído rio Tietê, que tantas vítimas fez com suas águas pestilentas, principalmente entre a população infantil.
O conforto e o bem-estar proporcionados pela água encanada para a maior parte da população encobrem toda uma luta de superação do homem em relação ao seu meio físico. As vozes do passado podem ampliar a conscientização popular para o uso racional da água, grande preocupação do novo milênio. Embora o Brasil tenha uma das maiores reservas hídricas do mundo, a água é finita: líquida, mas não é certa.
Filomena Pugliese Fonseca é arqueóloga, pós-doutoranda em História da Ciência na Universidade de São Paulo, e autora da tese “As águas do passado e os reservatórios do Guaraú, Engordador e Cabuçu: um estudo de Arqueologia Industrial”, (USP, 2008).
Dalmo Dippold Vilar é arqueólogo, pós-doutorando em História da Ciência na Universidade de São Paulo, e autor da tese “Água aos cântaros – Os reservatórios da Cantareira: um estudo de Arqueologia Industrial”, (USP, 2008).
Saiba Mais
COSTA, Luiz Augusto Maia. Oideário urbano paulista na virada do século. São Paulo: Editora Rima, 2003.
FREITAS, Afonso A. de. Tradições e Reminiscências Paulistanas. São Paulo: Gov. do Estado, 1978.
KAHTOUNI Saide. Cidade das águas. São Paulo: Ed. Rima, 2004.
Conflitos da França Antártica
Onde estava, afinal, o testamento no qual o “Pai Adão” legara o mundo às Coroas portuguesa e espanhola? Quem fez esta pergunta foi Francisco I (1494-1547), rei da França, que desafiou o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494 por Portugal e Espanha para assegurar o domínio ibérico sobre as terras do Novo Mundo. O monarca respondeu ao Tratado com uma provocação, declarando a política de mare liberum (em latim, “mar livre”). Como resultado, navios de comerciantes franceses percorreram o litoral brasileiro em meados do século XVI, criando bases de comércio ao longo da costa. Uma delas deu origem à colônia França Antártica, em 1555, situada na Baía de Guanabara, e assim batizada devido à crença de que se localizava perto do polo antártico. Doze anos depois, após um intenso combate, os portugueses conquistaram definitivamente a cidade do Rio de Janeiro.
As forças portuguesas vitoriosas foram comandadas pelo governador-geral Mem de Sá (1500-1572), que, como o padre José de Anchieta (1534-1597), descreveu a colônia francesa como um ninho de hereges, composto exclusivamente de seguidores da Reforma Protestante. Diziam ainda que tinham sido encontrados livros sobre o protestantismo nas fortificações. Dessa forma, o combate ganhava ares de luta contra a heresia reformada, tornando-se meritório aos olhos de Deus e da comunidade católica. Mais que uma disputa territorial, a expulsão dos franceses se tornava uma guerra santa.
Esses relatos portugueses foram usados mais tarde pelo historiador Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878) na elaboração de sua obra História do Brasil, escrita no século XIX. A ideia de uma França Antártica formada exclusivamente por protestantes foi confirmada pelo autor e propagada entre diversos historiadores brasileiros. Mas as narrativas francesas sobre o episódio mostram o contrário: a colônia abrigava diferentes tendências religiosas, e essa variedade causara conflitos internos que dividiram a comunidade. De fato, na Europa a Reforma protestante revolucionava a experiência religiosa em diversas terras e gerava grandes oposições. No âmbito francês, destacava-se a liderança de João Calvino (1509-1564), exilado em Genebra, de onde exercia grande influência, principalmente teológica, sendo suas intervenções no campo político pouco significativas.A versão dos derrotados diz que, em 1555, o monarca francês Henrique II (1519-1559) concedeu ao experiente militar Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1572) a elevada quantia de dez mil libras tornesas para conduzir uma esquadra da França ao Brasil. Nascido em família de nobreza recente, Villegagnon tornou-se cavaleiro da Ordem de Malta, organização militar e religiosa fundada no tempo das Cruzadas. Após uma longa ascensão social, ocupou o posto de vice-almirante da Bretanha.
Os adversários protestantes de Villegagnon diriam mais tarde que o cavaleiro tinha se convertido à Reforma e desejava fundar um refúgio no Novo Mundo, onde seria possível “melhor servir a Deus”. De acordo com essa ideia, Villegagnon teria aderido ao protestantismo e depois traído a religião. Mas ao partir da Europa, sua companhia não deixava perceber nenhuma predileção religiosa. A bordo estavam o piloto adepto da Reforma Nicolas Barré (? –1562) e o cosmógrafo franciscano André Thévet (1504-1592).
Após meses de viagem, em março de 1556 os navios franceses comandados por Villegagnon chegaram à Guanabara. Os viajantes ocuparam a ilha de Serigipe, iniciando a construção do Forte Coligny, assim batizado em homenagem a Gaspar de Coligny (1519-1572), almirante de França e um dos incentivadores do projeto.
Segundo os primeiros relatos de Thévet e Barré, publicados em1557 na Europa, o convívio entre católicos e protestantes foi inicialmente pacífico. A relação amistosa com os índios tupinambás também foi fundamental para a consolidação da colônia. Os nativos forneciam alimentos e água aos franceses, pois a ilha de Serigipe, escolhida por razões puramente militares, não possuía fonte de água doce. Em troca, os indígenas obtinham mercadorias europeias, especialmente instrumentos de ferro.
A comunicação com os índios era feita pelos trugimães, franceses que conviviam com os indígenas havia anos, tendo aprendido sua língua e seus hábitos. Mas em pouco tempo esses intérpretes entrariam em conflito com os novos colonos. Villegagnon exigiu que todos os homens que desejassem manter relações sexuais com as índias se casassem com elas. Os trugimães, que viviam na terra em contato com as mulheres nativas havia muito tempo, foram contra. Fez-se um complô contra os chefes da colônia para matá-los, mas o plano foi descoberto a tempo, permitindo a captura dos organizadores do motim e a morte dos líderes.
Os meses seguintes de 1556 transcorreram sem sobressaltos, mas em março de 1557, uma comitiva de adeptos da Reforma, liderada pelo nobre Du Pont e por dois pastores, Pierre Richer e Guillaume Chartier, chegou à Guanabara vinda de Genebra. Eram convidados do almirante francês Gaspar de Coligny, que se convertera ao protestantismo. A iniciativa foi orientada pelo líder reformador João Calvino. Entre os recém-chegados também estava o huguenote Jean de Léry (1534-1611), que, após retornar à Europa, escreveu o relato História de uma viagem feita à Terra do Brasil, uma das mais importantes obras sobre a França Antártica.
Inicialmente, o relacionamento entre o chefe da colônia e a comitiva de Du Pont foi amistoso, segundo as cartas de Villegagnon e dos pastores a Calvino. Porém, menos de um mês após a chegada dos protestantes, surgiu um conflito relacionado à celebração do culto de Páscoa. Para os católicos, o pão se transformava realmente no corpo de Cristo durante o ritual, enquanto para os protestantes seria apenas um símbolo da presença do filho de Deus. Para Villegagnon, a comunhão era uma das bases do poder real, e a negação da presença do corpo de Cristo abalava as bases em que a monarquia se apoiava.
Num primeiro momento, os grupos em litígio tentaram chegar a um acordo. O pastor Guillaume Chartier foi enviado de volta à Europa para consultar Calvino sobre o tema. Mas os debates não se resolviam, e a divergência religiosa foi tamanha que no fim de 1557 a comitiva de Genebra retornou à Europa. Contudo, o navio começou a afundar quando estava ainda na altura de Cabo Frio, e cinco genebrinos resolveram voltar de bote. Os náufragos foram recebidos por Villegagnon, que executou três por afogamento poucos dias depois. Segundo Jean Crespin (1523-1572), célebre editor militante reformado, autor de importante martirológio protestante, os três eram mártires da causa reformada, condenados por razões religiosas. Mas para o cavaleiro de Malta, os ditos “mártires” teriam provocado tumultos, incitando os colonos à insurreição e, dessa forma, sua condenação se dava exclusivamente por motivos civis.
O resto da comitiva seguiu para a Europa num navio em condições precárias. Segundo Jean de Léry, a viagem se prolongou além do esperado e os viajantes foram obrigados a devorar os macacos e papagaios que transportavam e, em seguida, os ratos. Por fim, hidrataram e comeram seus utensílios de couro. Muitos morreram de fome ao longo da tormentosa travessia. De acordo com Léry, apenas a piedade cristã os impedira de praticar a antropofagia.
Finalmente, chegando à Europa, os huguenotes iniciaram uma campanha difamatória contra Villegagnon, acusando-o de ter se convertido à Reforma e depois traído a causa. Em 1559, o cavaleiro de Malta retornou à França para se defender das acusações e publicou um livro discutindo a teologia de Calvino, convidando o reformador para um debate, que jamais aconteceu. A fidelidade à ortodoxia católica demonstrada por Villegagnon provocou uma guerra de panfletos, com muitas respostas e réplicas por parte dos protestantes. Ele acabou reconquistando a confiança do jovem rei Francisco II (1544-1560), e preparava outra expedição rumo ao Novo Mundo, em 1561, quando chegou a notícia da queda do Forte Coligny, na França Antártica, tomado pelos portugueses em 1560. Villegagnon abandonaria este plano, tratando apenas de obter uma indenização da Coroa portuguesa. E ganhou, apesar das pretensões lusitanas de legitimidade do tratado de Tordesilhas.
Os franceses ainda persistiram na Guanabara até 1567, quando seriam definitivamente expulsos por Mem de Sá. Embora tenham construído duas fortalezas nesse período, Paranapuã e Uruçumirim, a colônia jamais voltou a ser o que fora antes.
Pouco se sabe do que se passou nesses últimos sete anos, mas os relatos portugueses apontam que nas fortificações havia muito mais indígenas que franceses.
Na década de 1570, o debate foi retomado na França, quando André Thévet publicou a Cosmografia Universal, que acusava os protestantes pela perda da França Antártica. Respondendo a essa obra, Jean de Léry escreveu sua História de uma viagem feita à terra do Brasil, em que defenderia os huguenotes dessa acusação, atribuindo o verdadeiro fim da colônia às atitudes de Villegagnon, traidor da confiança de Coligny.Independentemente da disputa de versões, as obras de Thévet e Léry constituem preciosos registros sobre o Brasil da época. Embora a experiência da França Antártica tenha sido temporária, legou essas fontes de pesquisa e, mais ainda, a “cidade maravilhosa” de São Sebastião do Rio de Janeiro. Já dizia Jean de Léry que não havia no mundo paisagem mais bela que a Baía de Guanabara. Este talvez seja um dos raros fatos incontestáveis sobre o episódio da França Antártica.
Luiz Fabiano de Freitas Tavares é professor Universidade Castelo Branco e da Rede Municipal do Rio de janeiro, Autor do Livro entre Genebra e a Guanabara: A discussão política huguenote sobre a França Antártica (TopBooks, 2009).
Saiba Mais - Bibliografia:
LÉRY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
MARIZ, Vasco e PROVENÇAL, Lucien. Villegagnon e a França Antártica. Rio de Janeiro: Bibliex, 2000.
MARIZ, Vasco (org.). Brasil França – relações históricas no período colonial. Rio de Janeiro: Bibliex, 2006.
MENDONÇA, Paulo Knauss de. O Rio de Janeiro da Pacificação. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esporte, Departamento de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1991.
O protestantismo de Calvino
Noventa e cinco teses contra os abusos da hierarquia eclesiástica afixadas na porta da igreja de Wittenberg, Alemanha, em 1517. Este gesto de denúncia, realizado por Martinho Lutero (1483-1546), geralmente é considerado o início da Reforma Protestante. O monge agostiniano é excomungado. Em resposta, a bula papal é queimada. Como um incêndio, as novas ideias vão se propagando: católicos e reformados se confrontam, sobretudo na Europa Central. O francês João Calvino (1509-1564) adere ao protestantismo, desenvolvendo uma linha particular que enfatiza a predestinação, segundo a qual o homem já nasce escolhido por Deus para a vida eterna ou para a condenação. Do ponto de vista moral, o calvinismo é marcado por um extremo rigor, visível na própria cidade de Genebra, governada por Calvino e seus seguidores, onde danças e jogos são proibidos, e é imposta uma rígida disciplina a todos os habitantes. A doutrina do reformador genebrino se difunde principalmente nos Países Baixos, na Escócia, na Inglaterra (dando origem a duas correntes: os presbiterianos, mais moderados, e os puritanos, mais radicais) e na França, onde os calvinistas recebem o nome de huguenotes. (Equipe RHBN)
Por: Luiz Fabiano de Freitas Tavares
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Um Pouco da História dos Grupos Extremistas Que Vêm Ameaçando O Mundo a Algumas Décadas
Esse artigo publicado no site do uol conta um pouco da trajetória de grupos extremistas como; Al Qaeda, Taleban, Al Shabaab, Estado Islâmico e Boko Haram. Também fala sobre suas motivações, os ataques cometidos, seus principais lideres, entre outras coisas.
Vale a pena conferir para se ter um pouco de noção do que representa esses grupos para sociedade em que estão inserido e o quanto de politica tem por de trás de cada ataque ou cada vitima executada por eles.
Deixo a dica para quem interessar
Link: http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2015/02/27/entenda-o-que-querem-os-grupos-extremistas-que-ameacam-o-mundo.htm
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
A evolução democrática na ótica de Boris Fausto
Ninguém melhor que Boris Fausto para dar uma aula sobre democracia e suas recorrentes evoluções.
A verdade sobre Tiradentes, Marco Antonio Villa deixa sua visão sobre o tema
Bom tema para se discutir, o que é verdade e o que não é, felizmente a história nos permite a tirar varias conclusões, desde que se prove sua teoria com base em documentos no minimo relevantes.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
A História do Brasil por Bóris Fausto
Excelente documentário, para quem quer saber um pouco mais sobre a historia do Brasil. Aproveitem e leiam os livros de Bóris Fausto, que descrevem com riqueza de detalhes, toda a trajetória da transformação do Brasil colônia até os dias atuais.
Dedicado à quem tem sede de saber!
Dedicado a todos que procuram um pouco de conhecimento, sobre os fatos que movem nosso mundo!
Por: Thiago Brasil
Por: Thiago Brasil
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